Respiração e Ansiedade

Qualidade de vida

Respiração e ansiedade estão intimamente relacionadas. Para explicar essa influência mútua, proponho um exercício imaginativo, seguindo ensinamentos de José Ângelo Gaiarsa** (1920-2010) psiquiatra e escritor especializado na psicologia do corpo e do movimento. Imagine uma zebrinha distraída, pastando tranquilamente… Nos arredores, um tigre caminha lentamente, em estado de alerta. Está faminto, caçando. Ao descobrir a zebrinha, sua respiração paralisa alguns instantes, levando o estado de alerta ao limite. O caçador concentra a força necessária para o ataque: correr, saltar, abocanhar. Dispara na direção da caça e salta…

Agora, visualize a seguinte situação:

em pleno salto, nosso tigre é capturado por uma rede bem apertada. A rede bloqueia seus movimentos, imobilizando o corpo em estado de “pré-ocupação” – pronto para lutar pela sobrevivência. As funções vitais estão aceleradas, a respiração inibida, a energia acumulada não pode ser descarregada. A paralisação dos movimentos confunde o organismo e a ansiedade se instala. O tigre aprisionado ilustra a natureza psicofísica da ansiedade, figurando o “animal humano” aprisionado na rede de controle pessoal e social.

Na clínica psicológica, a imagem desse aprisionamento denuncia conflitos entre reações corporais instintivas e impulsos psicológicos. É como se duas “vontades” acionassem forças opostas – a vontade de fugir do perigo é equivalente à vontade de atacar e lutar, eliminar o perigo. O bloqueio dos movimentos de ataque e fuga aumenta a tensão e o desprazer. Por isso, ansiedade é, quase sempre, algo ruim de sentir. Tende a ser perturbadora até mesmo quando acionada por promessas de realização de desejos, quando antecipamos prazeres, e não desastres. Nenhuma ansiedade é desprovida de sentido. No mundo psíquico, o “animal” luta pela sobrevivência e tenta libertar-se do complicado controle social e individual. Um remédio natural para ansiedade é a respiração equilibrada, desbloqueada, capaz de promover a oxigenação do corpo e da mente. Respirar não resolve transtornos crônicos, mas acalma a mente e ajuda a dissipar intensidades perturbadoras.

Escrito por: Marisa Moura Verdade 
Mestra em Educação Ambiental, Doutora em Psicologia do Desenvolvimento Humano, Especializada em Psico-Oncologia, Pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião (IPUSP). Autora do livro Ecologia Mental da Morte. A troca simbólica da alma com a morte (FAPESP-Casa do Psicólogo, 2006).

** José Ângelo Gaiarsa (19/08/1920 – 16/10/ 2010). Psiquiatra, introdutor das técnicas corporais em psicoterapia no Brasil. Publicou mais de 35 livros, entre eles Respiração e angústia. São Paulo: Icone, 1971.